A prefeitura de Berlim oficializou em 16 de outubro a troca do nome da Blücherplatz, no distrito de Kreuzberg, que agora se chama Eva-Mamlok-Platz. A homenagem, noticiada pela DW Brasil, reconhece a trajetória de uma judia alemã que aderiu à clandestinidade ainda adolescente e morreu em cativeiro nazista em dezembro de 1944.
Filha de uma família judia de Berlim, Mamlok veio ao mundo em 6 de maio de 1918. Tinha 14 anos quando Hitler assumiu a chefatura do governo, em 1933. Militante da Juventude Operária Socialista (SAJ), ela migrou para a resistência ilegal logo que a agremiação foi posta na ilegalidade, no mesmo ano.
Da adolescência à deportação
Uma das ações atribuídas a ela vem do depoimento de Inge Berner, a única sobrevivente do grupo do qual Mamlok participaria mais tarde. Conforme esse relato, a jovem escalou o telhado de uma loja de departamentos na praça então chamada Blücherplatz e escreveu “Abaixo Hitler”. Berner, morta em 2012, contou que Mamlok foi vista, mas só acabou detida no ano seguinte. A pesquisadora Alexandra Weltz-Rombach confirma essa sequência.
O primeiro registro oficial da militante data de novembro de 1934. Ela foi detida após participar de uma cerimônia em memória dos socialistas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, no Cemitério Friedrichsfelde, na capital alemã. Os agentes do regime classificaram a adolescente de 16 anos como portadora de “posições hostis ao Estado” e a mandaram para Moringen, campo de concentração feminino na Baixa Saxônia, onde ficou até maio de 1935.
Libertada, ela não abandonou a militância, apesar da perseguição que sofria tanto por motivos políticos quanto por ser judia. Em 1939 nasceu Tana, sua filha, de pai não identificado. A menina foi entregue a um orfanato judaico berlinense e, em 1942, deportada para Auschwitz-Birkenau, onde foi assassinada. No ano seguinte ao nascimento da filha, Mamlok foi submetida a trabalho forçado na F. Butzke Schrauben-Industrie, em Berlim, e ali encontrou outras mulheres contrárias ao regime.
Esse convívio deu origem ao que a historiografia chama de “Grupo Eva Mamlok”, uma articulação informal de judias e não judias. As integrantes produziam panfletos contra o nazismo, escreviam palavras de ordem contra Hitler e trocavam obras vetadas pelo regime, entre elas títulos de Thomas Mann e Lion Feuchtwanger. A circulação desse material levou à prisão de Mamlok e de outras companheiras.
Em 13 de janeiro de 1942, ela foi enviada de Berlim ao gueto de Riga, na atual Letônia. O depoimento de Berner indica que a militante seguiu atuando na clandestinidade no gueto e que teria recebido de um contato berlinense um bolo com uma câmera em miniatura escondida, destinada a registrar a perseguição no local. Em outubro de 1944, foi levada ao campo de Stutthof, onde morreu dois meses depois.
O que a mudança de nome representa
O antigo nome da praça reverenciava o marechal prussiano Gebhard Leberecht von Blücher, comandante de tropas contra Napoleão em Leipzig (1813) e Waterloo (1815). Weltz-Rombach observa que memoriais dedicados a Blücher são abundantes na Alemanha e sugere que a substituição pode representar o distanciamento de uma rivalidade franco-alemã associada à tradição prussiana.
No endereço funcionam a Biblioteca Central e Regional de Berlim, a maior biblioteca pública do país, e o Carnaval das Culturas, festival multicultural anual. Para a pesquisadora, a presença do equipamento cultural no local dá sentido ao episódio dos livros proibidos, que foi justamente o motivo das detenções do grupo.
Weltz-Rombach tomou contato com a biografia de Mamlok em 2011, quando uma Stolperstein — placa memorial para vítimas do nazismo — foi colocada em sua lembrança. A partir daí, dedicou-se a pesquisar o tema e participou de iniciativas de divulgação, como uma mostra em 2024 e uma série de podcasts feita com jovens berlinenses.
A idade com que Mamlok iniciou a militância facilita a identificação dos participantes dessas atividades. Em oficinas, os jovens percorrem endereços ligados à sua vida e discutem o significado de passar meses encarcerado sem julgamento por condutas que, em tempos normais, não seriam crime — caso de manifestar opinião em público ou levar flores a uma homenagem.
Para a pesquisadora, a atuação feminina contra o nazismo tendia mais ao cotidiano do que a atentados ou ações armadas. Ela avalia que esse tipo de resistência só recentemente passou a receber atenção da pesquisa histórica e que ainda há muitas biografias semelhantes à espera de estudo.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/berlim-honra-jovem-judia-esquecida-que-combateu-o-nazismo/a-79717814?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf




