Em resposta aos protestos que se espalharam pelo país, o governo francês, que não tem maioria no Parlamento, comprometeu-se a liberar 4 bilhões de euros em crédito com juros subsidiados para reformar escolas até 2030, além de 1 bilhão de euros para as universidades até 2029. Conforme a DW Brasil, esse montante ainda não está disponível nos cofres públicos: as contas francesas seguem no vermelho.
O endividamento do Estado francês corresponde a cerca de 120% do Produto Interno Bruto (PIB). O parâmetro de Maastricht, criado para dar sustentação à estabilidade do euro, fixa em 60% o teto dessa proporção. Já a Alemanha, mesmo depois de um pacote de 600 bilhões de euros voltado a infraestrutura e defesa, mantém a relação em torno de 65%.
O que o spread revela
A diferença entre os juros exigidos da França e os da Alemanha nos títulos públicos de dez anos — o spread — alcançou o patamar mais alto desde a crise financeira. Nessa comparação, Paris paga quase 1,6 ponto percentual a mais que Berlim. Para Friedrich Heinemann, do Centro Leibniz de Pesquisa Econômica Europeia (ZEW), o indicador funciona como termômetro de febre do mercado de títulos: ao subir demais, pressiona as condições de financiamento do país e encarece o crédito para qualquer tomador.
O último registro de spread tão elevado havia sido no fim de 2011, no auge da crise da dívida na zona do euro. Desde junho de 2026, a diferença em relação aos papéis alemães mais que dobrou. A explicação está menos no quadro geral dos juros e mais no endividamento elevado, na instabilidade política, nos déficits orçamentários e nas manifestações recentes.
O peso dos juros no orçamento
Juros mais altos ampliam a fatia do orçamento público comprometida com o serviço da dívida. A previsão para 2026 é de gasto superior a 79 bilhões de euros com juros sobre o total da dívida pública. Em 2027, a estimativa passa de 91 bilhões de euros; até 2030, o valor pode ficar entre 125 bilhões e 132 bilhões de euros.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou proposta orçamentária para 2027 com corte de 54 bilhões de euros, o que levaria o déficit de 5,4% para 5% do PIB, mas o texto ainda não tem maioria parlamentar. A projeção de 125,8 bilhões de euros em juros para 2030 considera esse plano; caso os juros fiquem nos patamares atuais, a conta pode chegar a 130 bilhões de euros.
O economista Landry Charrier, da Universidade de Bonn, cita estudo do instituto francês de estatísticas (Insee) segundo o qual 56% da população recebe em benefícios e serviços públicos mais do que paga em impostos e contribuições. Para ele, isso cria interesse concreto na manutenção do status quo. O último orçamento público equilibrado da França foi registrado em 1974.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/a-explosiva-combinação-de-protestos-e-alta-dívida-pública-na-frança/a-79830816?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf





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