Um levantamento que reuniu 24 pesquisas apontou que quem diz sentir repulsa com mais frequência costuma ter posições mais conservadoras em questões sociais, conforme reportagem da DW Brasil publicada em 30 de outubro. O impasse que os psicólogos tentam resolver é o sentido dessa relação: a repulsa molda a inclinação política ou são as convicções que definem o que cada um acha repugnante?
Para o psicólogo Yoel Inbar, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, há uma raiz evolutiva nesse mecanismo, que teria surgido em parte para afastar as pessoas de fontes de adoecimento. Ele próprio pondera, no entanto, que os indícios sobre o vínculo entre repulsa e conservadorismo ainda não permitem uma conclusão firme.
O que os estudos comparam
A Escala dos Três Domínios do Nojo, criada em 2009, divide a repulsa em três tipos: a patogênica, despertada por possíveis focos de infecção, como alimento deteriorado; a sexual, ligada a determinadas práticas ou situações sexuais; e a moral, provocada por condutas tidas como erradas, a exemplo de traição ou crueldade. Entre os pesquisadores há debate sobre se a última seria de fato uma sensação física ou apenas reprovação de ordem moral.
Já um trabalho de 2020 chamado “O nojo é uma emoção conservadora?” verificou que os desconfortos variam conforme os valores de cada grupo. Eleitores de direita demonstraram mais aversão a casos de conduta sexual e de consumo de drogas, enquanto os de esquerda se incomodaram mais com crueldade contra animais e com a degradação do meio ambiente. Sobre a frequência geral com que sentem nojo, não surgiu distinção relevante entre os dois lados.
O que o novo estudo encontrou
O psicólogo Manos Tsakiris e a colega Mariana von Mohr, do Centro para a Política dos Sentimentos da Universidade de Londres, investigaram a hipótese de que a chave estaria no modo como cada um capta e decifra os sinais do próprio organismo, fenômeno chamado de interocepção. Foram ouvidos 632 adultos dos Estados Unidos sobre o quanto percebem e confiam nas mensagens do corpo.
Os dados indicaram que a aversão mais acentuada a condutas sexuais caminhava junto com posições conservadoras, sem que o grau de percepção corporal alterasse esse quadro. O vínculo entre repulsa moral e conservadorismo só se manifestou no grupo que declarou captar menos os sinais do próprio corpo. A percepção corporal, isoladamente, não mostrou ligação direta com a orientação política dos entrevistados.
Não houve, no novo estudo, associação com significância estatística entre a repulsa patogênica e posições conservadoras. Inbar classifica os achados como “no máximo sugestivas” e sustenta que as conclusões precisam ser testadas de novo, em pesquisas com hipóteses definidas de antemão.
Tsakiris levanta a possibilidade de que quem entende menos os próprios sinais corporais fique mais exposto a discursos políticos que lhes dizem o que estão sentindo. Ele ressalva que o estudo não examinou diretamente esse efeito sobre o comportamento político.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/ciência-quer-descobrir-se-nojo-influencia-posições-políticas-conservadoras/a-79803068?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf





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