A concentração de fumaça oriunda de queimadas florestais na Região Metropolitana e de focos de calor na capital tem se intensificado no período entre o início da noite e o amanhecer em Manaus. O fenômeno, que voltou a encobrir a cidade em 9 de outubro, altera a rotina da população e resulta em índices críticos de poluição atmosférica.
Segundo explicações da meteorologista Andrea Mendes, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a dinâmica térmica diária interfere diretamente na capacidade de dispersão do ar. Durante o dia, a incidência da radiação solar aquece o solo, gerando movimentação vertical e mistura entre diferentes camadas atmosféricas, o que dilui a fumaça visível.
Dinâmica atmosférica e inversão térmica
Com a chegada da noite e a consequente redução da temperatura, o processo se inverte. A superfície perde calor de forma rápida, deixando o ar próximo ao chão mais estável e diminuindo a circulação vertical. Essa estabilidade retém as partículas finas de poluição, conhecidas como MP2,5, nas camadas inferiores do ambiente habitado.
Conforme destacou a especialista do Inmet, em determinadas noites ocorre o fenômeno da inversão térmica, que atua como uma barreira física impedindo a elevação dos poluentes. O monitoramento das partículas inaláveis na capital é acompanhado por instrumentos como o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
A dispersão volta a ocorrer de forma gradual após o amanhecer, à medida que os raios solares reaquecem a superfície terrestre. Andrea Mendes pontua que o aumento da concentração noturna não reflete necessariamente uma maior quantidade de queimadas no período, mas sim a perda momentânea da capacidade da atmosfera de dissipar os resíduos acumulados.
Influência do El Niño e impactos na saúde
Além das variações diárias na circulação do ar, a atuação do fenômeno climático El Niño contribui para o agravamento do cenário de queimadas na região amazônica. Embora não provoque diretamente os focos de fogo, o fenômeno intensifica condições secas, reduz a frequência de chuvas e dificulta o processo natural de lavagem da atmosfera pela água das precipitações.
Informações do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), divulgadas em 8 de outubro, indicam que o El Niño segue em fortalecimento no Oceano Pacífico, com anomalia térmica de 2,1°C acima da média na região de monitoramento. As previsões apontam alta probabilidade de manutenção de intensidade expressiva até os primeiros meses de 2027.
Em decorrência do acúmulo de fumaça, a Defesa Civil emitiu alertas à população da capital amazonense recomendando evitar a exposição contínua ao ar livre e sugerindo o uso de máscaras de proteção, enquanto unidades de ensino chegaram a suspender atividades presenciais diante do quadro de poluição.
Foto: Ianke Sena
Fontes: G1 Amazonas — https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/10/09/por-que-a-fumaca-de-queimadas-piora-a-noite-em-manaus-especialista-explica.ghtml



