O que distingue a polícia francesa das demais forças da Europa

Armas classificadas como material de guerra e bombas de efeito moral separam a França de países como Alemanha e Reino Unido, dizem especialistas à DW.

Armas classificadas como material de guerra e bombas de efeito moral separam a França de países como Alemanha e Reino Unido, dizem especialistas à DW.
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As forças de segurança da França passaram a ser alvo de críticas e de denúncias de brutalidade contra manifestantes durante a onda de protestos das últimas semanas. A DW relata que vídeos com supostos episódios de violência policial circularam nas redes sociais, mas que a autenticidade dessas imagens não pôde ser confirmada de maneira independente.

De acordo com a reportagem, o arsenal francês está entre os mais amplos da Europa. Os agentes usam, por exemplo, a LBD-40, que dispara projéteis de borracha. Nos protestos estudantis, adolescentes sofreram lesões permanentes: um ficou sem uma das mãos, outro perdeu a visão de um olho e um terceiro fraturou a mandíbula.

O que diferencia a corporação

A DW aponta que, em muitos países, como Reino Unido e Alemanha, o uso de balas de borracha em manifestações é proibido. Em nações como a Espanha, elas são usadas ocasionalmente, mas provocam menos ferimentos do que na França. O gás lacrimogêneo é empregado regularmente pela polícia francesa, assim como por forças de outros países europeus.

Para a professora associada de criminologia Anastassia Tsoukala, da Universidade Paris-Sud, o elemento que mais separa a França das demais forças é o uso de bombas de efeito moral. Em declaração à DW, ela afirmou que esses artefatos contêm grande quantidade de substâncias explosivas e que, desse ponto de vista, a França é um caso único. Sobre as balas de borracha, a especialista disse que existem regras, como manter determinada distância, mas que mesmo assim as pessoas podem se movimentar e acabar perdendo um olho.

O ministro do Interior, Laurent Nunez, insiste que as armas utilizadas pela polícia são “não letais”. A DW observa, porém, que parte dos equipamentos empregados pela corporação é classificada pelo próprio Código de Segurança Interna francês como “material de guerra”.

Comparação e limites do debate

O pesquisador Sebastian Roche, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, especializado em comparar forças policiais na Europa, disse à DW que, se a brutalidade for medida pelo número de mortes entre manifestantes e pelo número de casos de mutilação, a polícia francesa é a mais brutal de toda a União Europeia. Ele relaciona o emprego atual dos equipamentos à decisão política: as LBDs foram introduzidas para unidades de combate ao crime organizado e hoje são usadas no controle de multidões.

Roche também contrasta métodos. Na Alemanha, segundo ele, a polícia deve procurar evitar a escalada da violência. Ele cita a retirada de manifestantes de Lützerath, em 2023, quando foram usados cães e houve menos feridos graves dos dois lados, e a ação em Sainte-Soline, no mesmo ano, na qual a polícia militarizada utilizou intensivamente LBDs e granadas e dois manifestantes ficaram em coma.

As normas da ONU citadas na reportagem estabelecem que o uso da força por agentes de segurança deve ser excepcional e seguir o princípio da proporcionalidade. Em entrevistas a emissoras de rádio, o ministro Laurent Nunez afirmou que os policiais respeitaram amplamente esse princípio durante os protestos atuais. A Anistia Internacional classificou a resposta policial como desproporcional e pediu que as autoridades cumpram as obrigações em direitos humanos; a representação francesa da Liga dos Direitos Humanos condenou a repressão ao movimento estudantil.

O texto recebido não informa o desfecho das apurações sobre os vídeos nem sobre a hipótese de que o adolescente que ficou sem a visão de um olho tenha sido atingido de perto por um projétil de borracha. A DW relata que procurou dois sindicatos policiais e o Ministério do Interior para comentar as acusações, sem resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

Os atos de rua prosseguem: em 17 de outubro, cidadãos de várias cidades francesas somaram mais de 500 mil nas ruas, em maioria sem confronto, contra cortes em serviços públicos e o encarecimento da vida. Há previsão de novas manifestações no fim de semana, e o governo francês diz que acionará até forças militares. Como o Politiza Amazonas informou, líderes de ultradireita na Europa e nos Estados Unidos têm atribuído à imigração a violência em protestos no continente, sem que a fonte aponte nexo entre os dois fatores.

Foto: Reprodução/DW Brasil

Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/polícia-da-frança-é-a-mais-violenta-da-europa/a-79741544?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf

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