A aviação é responsável por mais de 5% do aquecimento global de origem humana. A Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha (UBA) estima em 2,85 trilhões de euros (R$ 17,3 trilhões) o prejuízo anual que o setor impõe ao clima e à saúde, conforme reportagem da DW publicada em 2 de novembro. O valor considera impactos que vão além do CO2 liberado nos voos.
Se essa conta fosse repassada às passagens, a UBA calcula acréscimos de 1,4 mil euros num trecho só de ida entre Berlim e Nova York e de cerca de 330 euros entre Berlim e Istambul. Hoje, segundo a agência, o custo recai sobre a sociedade em geral.
Por que o impacto é maior do que o CO2
Os chamados efeitos não relacionados ao CO2 pesam duas vezes mais no clima do que o próprio CO2 emitido em voo, segundo a DW. Eles aparecem quando o vapor das turbinas vira cristais de gelo em grandes altitudes, formando os rastros de condensação. Em camadas de ar muito frias e úmidas, esses rastros duram horas e geram nuvens finas que atrapalham a saída do calor terrestre para o espaço.
O pesquisador Volker Grewe, do Centro Aeroespacial Alemão (DLR), disse à DW que ajustes extras nas rotas poderiam eliminar por completo esses efeitos, com base em “inúmeros estudos”. Voar mais baixo ou em camadas mais quentes e secas evitaria os rastros duradouros. Cálculos de pesquisadores citados na reportagem apontam que rotas otimizadas pouparia até 1,9 trilhão de euros em prejuízos climáticos.
Prazos e regras em discussão
Na Europa, as aéreas já pagam de 70 a 80 euros por tonelada de CO2 no sistema de comércio de emissões. Desde 2025, os efeitos não ligados ao CO2 de todos os voos também são registrados em banco de dados. A DW informa que, até o fim de 2027, deve ser apresentada proposta sobre incentivos financeiros para rotas mais favoráveis ao clima, além de regras de gestão do tráfego aéreo. A aplicação gradual pode começar em 2028.
A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) defende emissões líquidas zero no setor até 2050. A Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que o querosene queimado hoje responde por quase um bilhão de toneladas de CO2 ao ano. A UBA avalia que isso gera danos de longo prazo à saúde e ao clima na ordem de um trilhão de euros.
Uma das saídas centrais é trocar o querosene fóssil por combustíveis de aviação sustentáveis (SAF). A Iata afirma que os SAF biológicos, feitos com óleo de cozinha usado, gordura animal ou sobras agrícolas, cortam até 80% do CO2 frente ao fóssil. Já os sintéticos (E-SAF), produzidos com eletricidade renovável, água e CO2, são praticamente neutros para o clima.
A União Europeia quer fixar cotas obrigatórias de mistura. Em 2025, o SAF representava quase 3% do querosene de aviação no bloco; a partir de 2030, o mínimo passa a 6%, chegando a pelo menos 70% até 2050. Relatório da Agência Europeia de Segurança na Aviação (EASA) indica que Brasil, Canadá, China, Índia, Indonésia, Japão, Malásia, Singapura, Coreia do Sul, Tailândia, Chile e Turquia também têm metas ou exigências de adição obrigatória.
O custo pode acelerar a transição: um estudo citado pela DW projeta que, em 2040, o litro do sintético saia por cerca de um euro, pouco acima do querosene fóssil, hoje a aproximadamente 0,87 euro por litro na Europa. Ainda assim, a reportagem ressalta que o setor não conseguiu reduzir o impacto climático total, porque o tráfego aéreo segue crescendo. Por isso, evitar viagens de avião é apontado como a medida mais eficaz. A França proíbe desde 2023 voos domésticos curtos quando o destino é alcançável de trem em menos de 2,5 horas, e Amsterdã mantém desde maio de 2026 a proibição de publicidade de voos em espaços públicos.
Na Alemanha, a UBA calcula que a renúncia fiscal sobre voos chega a cerca de 12 bilhões de euros anuais e recomenda o fim desse tratamento, segundo a DW. Em muitos países, o setor aéreo não paga impostos sobre valor agregado nem sobre energia, o que pode deixar a passagem mais barata do que a viagem de trem.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/reduzir-emissões-da-aviação-evitaria-prejuízos-bilionários-ao-clima/a-79831627?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf





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