Uma pesquisa divulgada na revista científica Frontiers in Aging colocou Bolotana, pequeno município montanhoso da Sardenha, na Itália, no centro do debate sobre longevidade. O levantamento calcula que, entre as moradoras que alcançam 70 anos, 13,8% devem completar um século de vida. O índice se refere ao período de 2021 a 2025 e supera com folga os 3,5% registrados no conjunto da Itália e os 3,6% dos Estados Unidos.
Com pouco mais de 2,2 mil habitantes, Bolotana está fora do território sardenho tradicionalmente tratado como “zona azul”, denominação usada para áreas do planeta com concentração incomum de pessoas muito idosas, como Okinawa (Japão), Nicoya (Costa Rica), Ikaria (Grécia) e Loma Linda (Estados Unidos).
O que os dados mostram
Conforme o site Science Alert, a expectativa de vida adicional de uma moradora de 70 anos do vilarejo é de 20,85 anos, enquanto a média nacional italiana é de 18,06 anos. Nos dois indicadores, apenas as mulheres de Hong Kong superam as de Bolotana entre as populações incluídas na análise.
O desempenho masculino também chama atenção: um homem local que chega aos 70 anos tem 4,92% de chance de atingir os 100, contra 1,41% no restante da Itália. Ainda assim, o destaque do estudo são as mulheres.
O levantamento se apoia em registros históricos preservados no município, que permitem cruzar informações civis e religiosas de séculos passados. A partir dessa documentação, a Universidade de Illinois informa que foram localizados 38 centenários entre 3.060 pessoas nascidas em Bolotana de 1900 a 1925. O jornal The Guardian relatou que, em 2025, o município somava 12 residentes com pelo menos 100 anos, em uma população de 2.266 pessoas. Depois disso, seis morreram; as seis restantes eram mulheres, e as duas mais velhas tinham 102 anos.
Hipóteses e limites do estudo
Giovanni Mario Pes, principal autor do trabalho e um dos formuladores do conceito de “zona azul”, disse ao The Guardian que a descoberta rompe um intervalo de mais de 25 anos sem identificação de um polo de longevidade fora das áreas convencionais. Ele ressalta o convívio social intenso das idosas como elemento central.
Os autores listam como explicações possíveis a genética, a dieta, o esforço físico e a proximidade entre parentes. O epidemiologista S. Jay Olshansky, da Universidade de Illinois, observa que a rotina local envolve mais caminhadas do que deslocamentos de carro, que boa parte dos alimentos vem da própria região e que as famílias tendem a morar perto umas das outras.
O prefeito Francesco Manconi, que se apresenta como não cientista, relaciona a longevidade à comida fresca e variada, ao ambiente natural e ao costume de andar longas distâncias. Ele cita ainda que alguns idosos percorrem até 20 quilômetros diários em um município sem academia de ginástica.
Os pesquisadores, no entanto, pedem prudência. A população pequena impõe incertezas estatísticas, e os números mudam conforme o recorte temporal: no intervalo de 2015 a 2019, a chance de uma moradora de 70 anos completar 100 anos era de 1,46%, bem abaixo dos 13,83% do período mais recente. Os autores também apontam diferenças de método que impedem comparação direta entre as duas séries.
Por esse motivo, o texto trata Bolotana apenas como “candidata” a zona azul e recomenda acompanhamento por mais tempo antes de atestar um padrão. Dan Buettner, coautor e fundador da Blue Zones Inc., defende que o passo seguinte é investigar as causas do fenômeno e avaliar se os hábitos locais podem ser úteis para outras populações.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/povoado-italiano-onde-mulheres-chegam-aos-100-anos-intriga-cientistas/a-79648591?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf




