Professor da Ufam traduz ensaios inéditos de John Stuart Mill sobre democracia

Obra da Editora Unesp reúne três ensaios do pensador britânico traduzidos pela primeira vez para o português por docente da Ufam.

Obra da Editora Unesp reúne três ensaios do pensador britânico traduzidos pela primeira vez para o português por docente da Ufam.
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O docente Gustavo Dalaqua, vinculado ao Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), é o responsável pela primeira versão em língua portuguesa de ensaios do pensador britânico John Stuart Mill sobre democracia e representação política. O livro “Ensaios sobre democracia e representação política” saiu pela Editora Unesp e chega a todo o país, segundo o Portal do Holanda.

A coletânea reúne três textos que até então não tinham tradução para o português, de acordo com o professor. Nos dois primeiros, aparece a leitura de Mill sobre “A Democracia na América”, obra clássica de Alexis de Tocqueville escrita na década de 1830. Já o terceiro ensaio traz propostas para tornar o governo representativo mais democrático e trata dos perigos de manter o poder político concentrado em poucos grupos.

Conforme Dalaqua, os textos permitem contestar leituras que tratam democracia e representação política como modelos que não podem conviver. Apesar das origens históricas distintas — a democracia associada ao governo exercido diretamente pelo povo e a representação surgida em estruturas de poder concentrado —, o filósofo britânico examina de que modo as duas podem se complementar na organização da vida política. Para o docente, o trabalho também amplia o acervo acessível aos estudos de Filosofia Política na língua portuguesa.

Suicídio democrático e oligarquização

O professor aponta duas reflexões de Mill que considera atuais. A primeira é o perigo de a própria democracia criar condições para sua destruição, o que ele chama de suicídio democrático. Segundo o relato do docente, Mill acompanhou processo parecido após a guinada conservadora francesa de 1848, país que foi o primeiro a adotar o sufrágio universal masculino em escala nacional.

De acordo com o professor, o desfecho foi a escolha de Napoleão III, líder de perfil autoritário que obteve mais de 70% dos votos e que viria a dar um golpe de Estado em 1851. Mill teria entendido o episódio como consequência de um eleitorado mal informado, que apoiou um político contrário à própria liberdade, e passou a estudar instrumentos capazes de dificultar esse tipo de desfecho e de estimular uma participação mais consciente.

A segunda reflexão é a crítica ao avanço da oligarquização nos governos representativos. Segundo o docente, os próprios representantes ingleses daquele período declaravam sem disfarces que o governo representativo tinha caráter antidemocrático, o que, para o pesquisador, difere do cenário atual, em que esse caráter nunca é reconhecido de forma explícita. Ele diz que a democracia representativa é uma construção ainda incompleta e que o governo representativo oligárquico continua a ser uma realidade.

Participação cidadã

O livro também defende espaços de participação que permitam aos cidadãos conhecer perspectivas diferentes e formar uma compreensão crítica dos problemas políticos. No primeiro ensaio, essa ideia surge na proposta de uma “ágora dos modernos”, definida como ambiente de participação local e deliberação coletiva.

Para o professor da Ufam, esses ambientes são necessários para que a democracia não fique restrita ao voto ou à escolha de representantes e inclua o debate público. Ele observa que as novas tecnologias e a fragmentação das relações sociais diminuem o contato entre pessoas com visões distintas e dificultam a construção de um entendimento compartilhado sobre os problemas coletivos.

Dalaqua afirma ainda que a dimensão deliberativa da política vem encolhendo, o que atribui às novas tecnologias e à atomização da sociedade. Segundo ele, sem esse espaço de participação, a democracia se torna inviável. Conforme o professor, a obra propõe, com base na Filosofia Política, pensar os desafios das democracias de hoje e buscar maneiras de tornar o poder mais democrático, aproximando representação e participação popular.

Se você ou alguém próximo precisa de apoio emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e pelo site cvv.org.br.

Foto: Reprodução/Ufam

Fontes: Portal Amazônia — https://portalamazonia.com/educacao/ensaios-john-stuart-mill-debate/; Portal do Holanda — https://www.portaldoholanda.com.br/educacao/professor-da-ufam-traduz-pela-primeira-vez-para-o-portugues-ensaios-ineditos-de-john-stuart-mill-sobre-democracia

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