Partidos que disputam as eleições legislativas de Israel, marcadas para 27 de outubro, estão usando inteligência artificial em vídeos, anúncios e ligações automatizadas para eleitores. Segundo o projeto de pesquisa Ze Be AI, da Universidade Aberta de Israel, o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, publicou mais de 1.800 posts com conteúdo gerado por IA até meados de outubro — cerca de um quarto de todo o material da legenda analisado pelo monitoramento.
Um dos casos citados é um clipe de 19 segundos publicado na conta de Netanyahu no X. O vídeo, gerado por IA, mostra o candidato Gadi Eisenkot correndo em direção a uma pessoa que se parece com seu filho e, em vez de abraçá-lo, caindo nos braços de Mansour Abbas, líder do partido árabe Ra’am. O filho de Eisenkot morreu em 2023, durante a guerra entre Israel e o Hamas. A publicação teve mais de 1 milhão de visualizações e gerou indignação.
Monitoramento e regras
A equipe de Anat Ben-David, que lidera o Ze Be AI, acompanha desde o fim de julho o conteúdo publicado por políticos no Facebook, Instagram, X e TikTok. Até meados de outubro, haviam sido coletadas mais de 44 mil publicações, das quais mais de 14% usavam IA de alguma forma. A abordagem mais comum é híbrida, com a tecnologia aplicada a imagens, músicas, legendas, logotipos ou deepfakes completos.
Em julho, o Comitê Central de Eleições de Israel criou uma norma que exige identificar todo conteúdo eleitoral gerado ou manipulado por IA. Ben-David afirma que, fora essa exigência, há poucas restrições. Segundo a pesquisadora, Israel não tem uma Lei de IA nem uma Lei de Serviços Digitais como a europeia, e a legislação sobre privacidade está desatualizada. “Por isso vemos novos usos da IA que seriam impossíveis de ocorrer na Europa”, disse ela à DW.
Ligações e deepfakes
Além dos vídeos, alguns israelenses têm recebido chamadas automatizadas com IA mais conversacionais que as antigas ligações robóticas. O pesquisador Nitsan Yasur, da Associação de Internet de Israel, compartilhou com a DW a gravação de uma ligação de quatro minutos em que uma voz se apresenta como a pesquisadora Danielle, ligada a um instituto de pesquisas eleitorais, e pergunta sobre preferências de voto.
Ao ser questionada se era humana, a voz admitiu que não havia agente humano na linha. O sistema não revelou quem encomendou a pesquisa, mesmo após cinco perguntas. Entre os exemplos de conteúdo gerado por IA citados pela reportagem estão um vídeo do líder dos Democratas, Yair Golan, em que suas roupas mudam a cada volta de um ventilador de teto, e uma publicação do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, mostrando a procuradora-geral e juízes da Suprema Corte sendo detidos.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, compartilhou um vídeo gerado por IA com palestinos em uma esteira rolante rumo a algo semelhante a um campo de concentração, condenado pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha como “completamente inaceitável” e “abominável”. Em julho, a autoridade eleitoral ordenou que Smotrich removesse um vídeo não rotulado como IA por considerá-lo enganoso.
Segundo pesquisa da Associação de Internet de Israel, cerca de um quarto dos israelenses afirmou que consideraria usar ferramentas de IA ou outros serviços online para decidir o voto. Isso levanta preocupações com a prática de otimização para mecanismos generativos (GEO), que consiste em criar conteúdo online projetado para ser absorvido por chatbots de IA e influenciar suas respostas.
De acordo com registros apresentados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, o governo israelense pagou uma empresa americana para criar sites destinados a alimentar grandes modelos de linguagem.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/eleição-em-israel-vira-laboratório-político-da-ia/a-79705929?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf




