Bolhas algorítmicas nas eleições: o que se sabe e o que não se pode comprovar

Especialistas explicam como os algoritmos reforçam visões políticas e por que é difícil comprovar favorecimento a candidatos nas redes.

Especialistas explicam como os algoritmos reforçam visões políticas e por que é difícil comprovar favorecimento a candidatos nas redes.
Compartilhe esta notícia

Em período eleitoral, cresce a percepção de que eleitores discutem política com pessoas que recebem informações diferentes das suas. Segundo reportagem da DW Brasil publicada em 19 de outubro, pesquisadores atribuem parte desse fenômeno à forma como as plataformas digitais selecionam e distribuem conteúdos por meio de sistemas de recomendação.

O pesquisador Emilio Alves Don, que estudou algoritmos e opinião pública em doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), explica que a ferramenta customiza o que cada usuário vê para ampliar o tempo de permanência e o consumo na plataforma. A cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Unirio e da FGV, descreve o resultado como uma espécie de “realidade paralela”, em que a sensação pessoal pode se sobrepor a pesquisas eleitorais.

O que os algoritmos fazem e o que não é público

De acordo com a DW, as plataformas não revelam como os algoritmos funcionam, e pesquisadores tratam essas ferramentas como segredos industriais. Luiz Alberto de Farias, professor de opinião pública na USP, afirma que o objetivo é manter o usuário em conforto opinativo, entregando conteúdos que ele já consome. Para Veiga, a segmentação também alterou a comunicação de campanhas, que passaram a mirar grupos específicos em vez de um denominador comum, como ocorria na televisão.

A reportagem relata que, nos últimos dias, a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusou a Meta de favorecer o adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A empresa nega as acusações. Segundo os especialistas ouvidos pela DW, é difícil comprovar qualquer ação para beneficiar Flávio, sobretudo porque os detalhes sobre os algoritmos não são abertos.

O que se pode e o que não se pode concluir

A distinção central é entre o efeito documentado pelas pesquisas citadas e a prova de manipulação deliberada. Os estudiosos descrevem um mecanismo geral de reforço de preferências e apontam interesses financeiros das plataformas, já que conteúdos com mais engajamento tendem a gerar mais monetização. Isso não equivale a demonstrar que uma empresa tenha agido para favorecer um candidato específico, conclusão que o próprio material recebido não sustenta.

O caso Meta reacendeu, segundo a DW, o debate sobre a regulamentação das plataformas no país, discussão que se arrasta há anos com pouco avanço. Veiga defende mais transparência sobre como os conteúdos são distribuídos e afirma que a regulação é fundamental porque as plataformas impactam a continuidade da democracia. Farias diz que é necessária uma lei para definir como as empresas podem disseminar informações, além de fiscalização sobre o controle de conteúdos compartilhados. O material recebido não informa prazos, textos em tramitação ou canais de participação sobre essa regulamentação.

Foto: Reprodução/DW Brasil

Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/por-que-o-algoritmo-parece-colocar-o-eleitor-dentro-de-uma-bolha-política/a-79677202?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf

Compartilhe esta notícia