Maioria democrata nos EUA não enterraria tarifaço, mas abriria canais ao Brasil

Analistas veem espaço maior de negociação para o Brasil se a oposição controlar o Congresso, sem revogação automática das tarifas.

Analistas veem espaço maior de negociação para o Brasil se a oposição controlar o Congresso, sem revogação automática das tarifas.
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As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, encerradas nesta terça-feira, 3 de novembro, podem alterar a correlação de forças no Congresso americano e, com isso, a forma como o governo de Donald Trump conduz a política externa — inclusive nas relações com o Brasil. A previsão apontada pela DW Brasil é de que a votação passe o controle do Legislativo à oposição democrata.

Hoje, os republicanos têm 218 cadeiras na Câmara e 214 na oposição; no Senado, a divisão é de 53 a 47. Para virar as duas Casas, os democratas precisam de um ganho líquido de quatro assentos em cada uma.

Segundo a cientista política Gisele Agnelli, autora de “Democracia Made in USA”, a mudança mais significativa para o Brasil não seria encontrar um Trump mais moderado, mas um presidente com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões. Nos últimos dias de campanha, 25 democratas publicaram carta pedindo explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela acolhida ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que foi para Miami após perder a eleição presidencial.

O que uma maioria oposicionista permitiria

Com maioria democrata, as comissões parlamentares poderiam, conforme Agnelli, emitir intimações formais, convocar autoridades e exigir documentos sobre políticas comerciais, decisões diplomáticas, sanções, imigração e operações militares. À Folha de São Paulo, a deputada Pramila Jayapal, uma das signatárias da carta, indicou que a oposição quer investigar a atuação de Trump e da Meta no contexto do pleito brasileiro. Em setembro, outra carta democrata, assinada inclusive pelo senador Bernie Sanders, já havia questionado ações de interferência sobre a eleição no Brasil.

A ofensiva comercial americana contra o Brasil ganhou tração em 2025, quando Trump aplicou sobretaxas de 50% a produtos brasileiros, em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. Uma vitória democrata não enterraria automaticamente o tarifaço, pondera Agnelli, mas criaria um terreno potencialmente mais favorável para conversas bilaterais, devolvendo ao Brasil a possibilidade de negociar com diferentes centros de poder dentro dos Estados Unidos.

Limites do alcance legislativo

Especialistas em comércio e assessores parlamentares nos EUA ouvidos pela DW esperam que uma oposição vitoriosa promova audiências de fiscalização e votações simbólicas para revogar as taxas. Qualquer empreitada legislativa, porém, esbarraria no veto presidencial: a vantagem democrata apontada pelas pesquisas não seria suficiente para atingir os dois terços necessários na Câmara para derrubar um veto, e no Senado as previsões são mais incertas.

Paralelamente, o governo Trump planeja recorrer mais a ordens executivas, inclusive no comércio, para contornar o Legislativo. Para Leonardo Paz, do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, num cenário em que Trump perca as duas Casas, sua estratégia pode ser justamente priorizar a agenda externa, área em que dispõe de mais margem para agir sem aval do Congresso.

A distinção central é que uma maioria oposicionista amplia o poder de investigação e de desgaste político, mas não substitui a votação necessária para revogar tarifas nem impede o recurso a ordens executivas.

Diversos observadores apontam ainda um crescente custo político da agenda externa do republicano e a veem como um dos fatores que prejudicam o desempenho eleitoral de seu partido. Embora a diplomacia raramente figure entre os temas decisivos de uma eleição, os efeitos da guerra no Irã, por exemplo, se fazem sentir no bolso da população. Pesquisa do Institute for Global Affairs indica que a maior parte dos americanos liga o conflito à alta do custo de vida.

Para Agnelli, aliados republicanos também poderão recalcular o preço de permanecer associados às decisões presidenciais mais impopulares. Como o Politiza Amazonas informou, os revezes de aliados de Trump no exterior antecederam as midterms, e a saída de Flávio do país enfraqueceu o clã bolsonarista, segundo analistas.

Foto: Reprodução/DW Brasil

Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/eleição-nos-eua-pode-aliviar-pressão-de-trump-sobre-o-brasil/a-79845890?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf

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