Editoras e agentes literários brasileiros ampliaram a negociação de direitos de publicação em feiras internacionais, mas a chegada de uma obra a leitores estrangeiros continua dependendo de fatores que vão além da qualidade literária. A avaliação é de agentes e representantes do setor ouvidos pela DW Brasil após a Feira do Livro de Frankfurt, realizada no início de outubro.
Segundo a agente literária Nicole Witt, que representa autores brasileiros em negociações internacionais, não existe um interesse automático pela literatura brasileira. O que atrai compradores estrangeiros, afirma, são boas histórias com potencial de venda. Ela cita como temas com circulação narrativas ligadas à floresta amazônica, aos povos originários, ao debate racial, à diversidade sexual e à questão da mulher.
O que sustenta a venda de direitos
Para Witt, ajuda quando o livro traz um elemento relacionado ao país de origem do autor, o que, segundo ela, justifica o esforço adicional de traduzir do português. A agente cita autores como Ailton Krenak, Carola Saavedra, Paulo Scott, Patrícia Melo e Tatiana Salem Levy como exemplos de obras que dialogam com essas questões. Ela observa ainda que clichês sobre o Brasil perderam espaço na literatura traduzida nos últimos anos.
O desempenho no mercado interno, porém, não garante o interesse externo. O romance A Pediatra, de Andréa del Fuego, ultrapassou 90 mil exemplares vendidos no Brasil, segundo Witt, mas enfrentou resistência de editores estrangeiros. Entre os argumentos, estava o fato de a obra ser muito diferente de Os Malaquias, livro anterior da autora já publicado na Alemanha e na Itália, e a dificuldade de o humor ácido atravessar fronteiras culturais.
A negociação mudou quando a tradutora Nina Perrotta apresentou um trecho do romance no PEN Presents, programa de promoção internacional de literatura traduzida. A iniciativa despertou o interesse de Linda Mohamed, da editora britânica Faber and Faber, que adquiriu os direitos para a língua inglesa. Witt avalia que a reputação da Faber pode estimular outros compradores internacionais.
Números do programa de internacionalização
No primeiro semestre de 2026, o Brazilian Publishers, programa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a ApexBrasil, registrou 2,29 milhões de dólares em negócios de empresas apoiadas na Feira do Livro de Londres, cerca de 200 mil dólares em Bogotá e 170 mil dólares em um encontro profissional em Istambul. Esse total abrange várias frentes do comércio editorial, e não somente a cessão de direitos de tradução.
No mesmo período, o conjunto de empresas do programa somou cerca de 8 milhões de dólares em transações internacionais, nas quais entram a exportação de livros físicos e a negociação de direitos autorais. A cessão de direitos respondeu por 44,65% desse montante, contra 17,34% em 2025. Para Frankfurt, a projeção era de 8,1 milhões de dólares.
A presidente da CBL, Sevani Matos, afirma que a diversidade é um dos principais atrativos da produção brasileira e que as oportunidades se ampliam para além de Europa e América Latina, com iniciativas voltadas ao Oriente Médio. Ela defende investimentos contínuos e relações comerciais de longo prazo.
A barreira linguística segue entre os principais obstáculos. Como o português tem pouca presença no comércio editorial mundial, apresentar trechos vertidos e materiais em outros idiomas pode ser o que decide se uma editora estrangeira vai avaliar o livro. Programas de incentivo à tradução ajudam a reduzir custos. Witt destaca as bolsas da Fundação Biblioteca Nacional, mas aponta que a variação de datas e os prazos curtos das chamadas recentes dificultam o planejamento das candidaturas.
Os clássicos também seguem abrindo portas. Em janeiro de 2027, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, ganhará novas traduções para o inglês e o alemão. A edição inglesa, de Alison Entrekin, será publicada pela Simon & Schuster nos Estados Unidos e pela Bloomsbury no Reino Unido. Na Alemanha, a S. Fischer lançará uma tradução de Berthold Zilly.
Foto: Reprodução/DW Brasil
Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/como-editoras-brasileiras-vendem-a-literatura-do-brasil-para-o-mundo/a-79795264?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf





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