Festival das Ariranhas em Palmari embasa projeto de mestrado da USP

Evento comunitário na bacia do rio Javari deu origem a proposta de mestrado que prevê pescadores no monitoramento acústico das ariranhas.

Evento comunitário na bacia do rio Javari deu origem a proposta de mestrado que prevê pescadores no monitoramento acústico das ariranhas.
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Moradores de Palmari e de comunidades próximas, na bacia do rio Javari, no Amazonas, participaram de um festival dedicado às ariranhas que serviu de ponto de partida para uma proposta de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP. A programação teve teatro, futebol, concurso de imitação de sons dos animais e almoço coletivo.

A organização foi do biólogo colombiano Kirpal Rodriguez, e a iniciativa se inspirou no Festival del Choibó, realizado na Colômbia em torno da conservação do macaco-aranha-marrom. Conforme o Portal Amazônia, a edição de 2026 ocorreu em referência ao Dia Mundial da Lontra, marcado anualmente para a última quarta-feira de maio.

O que a pesquisa pretende fazer

A proposta articula três frentes: gravação de sons, uso de inteligência artificial e o saber dos moradores sobre a região. O objetivo é acompanhar a presença das ariranhas e os horários de atividade delas em rios, lagos e igarapés do entorno de Palmari, com atenção especial aos pontos de pesca. Caberá aos próprios moradores indicar onde instalar os gravadores, considerando o que conhecem sobre o deslocamento dos bichos.

Também está previsto que voluntários carreguem equipamentos portáteis nas saídas de pesca e registrem os sons das ariranhas que avistarem. Esse arranjo é descrito como ciência cidadã, modelo em que pessoas sem formação acadêmica contribuem em etapas da investigação. Em Palmari, a expectativa é que essa ajuda alcance três tarefas: apontar as áreas frequentadas pelos animais, fixar os aparelhos e reunir as gravações.

Os gravadores ficarão presos em árvores perto dos cursos d’água. Como vão captar também ruídos de outras espécies e do próprio ambiente, a equipe pretende melhorar um programa de inteligência artificial capaz de separar as vocalizações de ariranhas do restante. O ponto de partida é um modelo que já reconhece parte dos sons, mas ainda erra identificações; as novas gravações servirão para treiná-lo e medir seu desempenho.

Limites e próximos passos

O texto do projeto estabelece uma fronteira clara: durante o mestrado não haverá ações para mudar o comportamento dos moradores nem manejo das ariranhas. Os dados reunidos poderão, isso sim, alimentar trabalhos futuros de outros integrantes e parceiros do laboratório. O festival e a pesquisa, portanto, não configuram por si um plano de manejo nem uma alteração de conduta já em andamento.

A orientadora Patrícia Ferreira Monticelli afirmou que uma nova edição do Dia da Ariranha será realizada, desta vez com o propósito de verificar o quanto a ação consegue efetivamente alterar crenças e atitudes em favor de uma convivência benéfica para todos os envolvidos e para o ecossistema, segundo a reportagem original.

A relação entre pessoas e ariranhas na região não é isenta de atritos ligados à pesca. Em trabalho de campo, Rodriguez ouviu relatos de pescadores sobre peixes capturados consumidos pelos animais e redes danificadas por eles. A agenda do festival foi montada junto com a comunidade, com professores ajudando na divulgação, moradores participando de reuniões, contribuições voluntárias e a organização das atividades.

Entre as ações do evento, houve troca de mudas, plantio com crianças e uma dinâmica que trocava garrafas plásticas por brinquedos e roupas doados. Segundo a apresentação do festival, cerca de 80 garrafas foram recolhidas. O concurso de vocalizações teve a presença de indígenas Matis, e a peça teatral partiu de histórias contadas pelos pais para tratar de medo, raiva e curiosidade diante dos animais, com o Curupira no papel de mediador.

Foto: Kirpal Rodriguez/Acervo pessoal

Fontes: Portal Amazônia — https://portalamazonia.com/educacao/festival-ariranhas-mestrado-usp/

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