Colômbia: governo Espriella retira peças de museu e é acusado de censura

Ao menos 30 peças sobre feminismo, diversidade e acordo de paz saíram da exposição permanente do Museu Nacional; especialistas veem ação autoritária.

Ao menos 30 peças sobre feminismo, diversidade e acordo de paz saíram da exposição permanente do Museu Nacional; especialistas veem ação autoritária.
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O governo do presidente colombiano Abelardo de la Espriella determinou a retirada de ao menos 30 peças da exposição permanente do Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá. Entre os objetos removidos estão itens ligados a movimentos feministas e LGBTQ+, à violência política, à Constituição de 1991 e ao Acordo de Paz de 2016, segundo a DW Brasil.

A medida gerou protestos em frente ao museu e debate nos meios de comunicação e nas redes sociais. A intervenção ocorre no contexto de uma “guerra cultural” anunciada pelo próprio presidente em 17 de julho, quando tornou público o nome de Paola Holguín para o Ministério da Cultura.

O que foi retirado e por quê

Além de peças sobre direitos das mulheres e diversidade sexual, saíram do acervo exposto objetos com relação direta à história política do país. Entre eles estão pôsteres de campanha de dois presidenciáveis mortos em 1990 e o “balígrafo”, caneta produzida com projéteis de fuzil e usada na assinatura do Acordo de Paz de 2016.

A ministra Paola Holguín defendeu a retirada. Segundo a DW, ela afirmou que a vocação institucional do Museu Nacional não é funcionar como ferramenta de doutrinação política, como foco de versões tendenciosas da história nem como meio de amplificação da agenda governamental. Disse ainda que o espaço não pode ser de apologia ao crime ou de revitimização, e que cabe ao museu respeitar a verdade, a justiça, a reparação e a não repetição em relação às vítimas.

Revisão curatorial ou censura?

A museóloga Cristina Lleras, curadora de Arte e História do Museu Nacional entre 2004 e 2012, disse à DW que uma exposição permanente resulta de anos de pesquisa e do envolvimento de atores diversos, e não de uma decisão isolada. Ela sustenta que um museu pode rever narrativas, desde que o processo obedeça a critérios técnicos e tenha ampla participação.

Para Lleras, porém, o veto às obras não se confunde com uma revisão curatorial. A retirada por ordem não apenas governamental, mas presidencial, é classificada por ela como ato autoritário, porque não houve diálogo nem mecanismos que garantam participação e discussão, procedimentos que, segundo a especialista, eram seguidos até então no museu.

O especialista em usos públicos da história Sebastián Vargas, da Universidade del Rosario, concorda que revisões são saudáveis para uma democracia. Ele afirma, no entanto, que uma revisão legítima deveria ter o envolvimento de quem trabalha nos museus, dos curadores, das comunidades e das autoridades da instituição — o que, na avaliação dele, não ocorreu.

Vargas diz que a ação de funcionários do Ministério da Cultura, com obras retiradas de maneira arbitrária e a portas fechadas, viola o princípio da participação. Segundo ele, a medida pode ser interpretada como inconstitucional por atingir garantias de manifestação e de acesso a informações asseguradas pelo artigo 20 da Constituição colombiana.

A distinção central apontada pelos entrevistados é entre atualizar uma narrativa museológica com critérios técnicos e participação e remover conteúdo por decisão presidencial sem diálogo. É essa diferença de procedimento — e não o conteúdo das peças em si — que sustenta a acusação de censura e a leitura de que a intervenção se aproxima perigosamente de uma prática inconstitucional, conforme Vargas.

O historiador Pablo Stefanoni traça paralelo entre o episódio e o conceito de “bolchevismo cultural” da Alemanha nazista, que rejeitava a chamada “arte degenerada”. Segundo ele, as novas direitas radicais propõem uma contrarrevolução cultural antiwoke, termo importado dos Estados Unidos e incorporado ao vocabulário da ultradireita na Espanha e na América Latina.

Foto: Reprodução/DW Brasil

Fontes: DW Brasil — https://www.dw.com/pt-br/governo-espriella-é-acusado-de-censura-após-retirar-peças-expostas-em-museu-na-colômbia/a-79725043?maca=bra-rss-br-top-1029-rdf

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