Um estudo publicado nesta sexta-feira, 9 de outubro, na revista científica EntomoBrasilis aponta que o Aedes albopictus, mosquito que pode transmitir dengue, zika, chikungunya e febre amarela, deposita ovos a mais de 10 metros de altura. A pesquisa foi feita em uma torre de seis andares situada em um fragmento florestal urbano de Manaus, capital do Amazonas.
O trabalho é resultado de parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e as universidades Federal do Maranhão (UFMA), Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Londrina (UEL).
Como o estudo foi feito
Para medir a capacidade de oviposição da espécie, a equipe instalou 30 armadilhas, conhecidas como ovitrampas, em diferentes alturas da torre. Ao longo de 10 semanas de 2015, parte delas na estação seca e parte na chuvosa, os pesquisadores monitoraram os recipientes em busca de ovos. Ao todo, foram recolhidos mais de 35 mil.
Os ovos apareceram em todos os níveis avaliados, com registro a até 10,8 metros do solo. A maior concentração, no entanto, ficou nos andares mais próximos do chão, principalmente até o quarto andar.
A espécie é comum na região e circula tanto em áreas de mata quanto em locais habitados pelo homem, com potencial para participar da transmissão de doenças. O Aedes albopictus é considerado primo biológico do Aedes aegypti, apontado como o principal vetor da dengue no país.
Risco nos andares superiores
Segundo Adriano Nobre Arcos, pesquisador do Inpa e um dos autores do estudo, a colonização de andares superiores significa que quem mora em apartamentos também está sujeito a picadas de mosquitos. Ele afirma que os moradores desses imóveis podem adoecer por dengue, zika e chikungunya sem sair de casa.
O pesquisador explica que os prédios residenciais oferecem condições favoráveis ao inseto, combinando locais de descanso, recipientes que acumulam água, como calhas e vasos de plantas, onde as fêmeas depositam os ovos, além de humanos e animais domésticos que podem servir como fonte de sangue.
Arcos afirma que, apesar de o Ae. albopictus estar amplamente disseminado no Brasil, especialmente em áreas rurais e periurbanas, não existem registros de que ele transmita a dengue no país. Segundo ele, já se detectou a presença do vírus da dengue do sorotipo DEN-1 em exemplares da espécie, o que mostra que o inseto pode se infectar, mas não comprova transmissão a humanos em condições naturais no Brasil.
Ele acrescenta que, em testes de laboratório, mosquitos de populações brasileiras já mostraram que conseguem transmitir o vírus, o que mantém o alerta sobre o potencial da espécie.
De acordo com o estudo, o número de ovos também variou conforme a umidade do ar, mas essa relação apareceu somente na estação seca. Nesse período, esse fator respondeu por 34% da variação observada na abundância de ovos.
Na avaliação de Arcos, o trabalho expõe uma lacuna nas estratégias de controle em uso, porque as equipes de combate a endemias concentram a atuação em quintais e no térreo. Ele defende que a inspeção de rotina e o manejo de criadouros, nas cidades com forte expansão de edifícios residenciais, alcancem também os andares mais altos.
Arcos diz que ainda é preciso esclarecer de que forma o mosquito alcança os andares mais elevados da torre, avaliando o peso do voo próprio e do transporte passivo, em elevadores ou no corpo das pessoas.
Entre os próximos passos, o pesquisador cita acompanhar o comportamento do mosquito ao longo do tempo, para medir como mudanças climáticas e variações sazonais afetam a espécie. A equipe pretende ainda medir a taxa de infecção natural por arbovírus nos mosquitos recolhidos em cada nível, para dimensionar o risco real de transmissão nas cidades.
Foto: Divulgação/Acervo pesquisadores
Fontes: Portal Amazônia — https://portalamazonia.com/saude/mosquitos-dengue-altura-manaus/




